Figura central da música norte-americana e arquitecto discreto do rock psicadélico e jam, o guitarrista e compositor BOB WEIR faleceu após uma batalha contra o cancro, vítima de complicações pulmonares.
A música norte-americana perdeu uma das suas figuras mais duradouras e influentes. BOB WEIR, membro fundador dos GRATEFUL DEAD e um dos principais responsáveis pela definição estética e espiritual do rock psicadélico e jam, morreu aos 78 anos. O músico encontrava-se a lutar contra um cancro e acabou por falecer devido a problemas pulmonares subjacentes, conforme confirmado pela família.
A notícia foi tornada pública ontem, Sábado, dia 10 de Janeiro, através de um comunicado assinado pela filha, Chloe Weir, que sublinhou a serenidade dos seus últimos momentos. “É com profunda tristeza que partilhamos a notícia da morte de Bobby Weir. Ele partiu em paz, rodeado de quem o amava, depois de ter vencido corajosamente um cancro, à maneira que só o Bobby sabia. Infelizmente, acabou por sucumbir a problemas pulmonares subjacentes.”
No mesmo texto, Chloe Weir traçou um retrato íntimo e abrangente de um artista cuja vida esteve inseparavelmente ligada à estrada, ao palco e a uma ideia muito própria de comunidade. “Durante mais de sessenta anos, o Bobby fez-se à estrada. Guitarrista, vocalista, contador de histórias e membro fundador dos Grateful Dead. Bobby será para sempre uma força orientadora cuja arte singular redefiniu a música americana.
O seu trabalho fez mais do que encher salas com música; foi luz quente a preencher a alma, criando uma comunidade, uma linguagem e um sentimento de família que gerações de fãs transportam consigo.” A declaração acrescenta ainda que “cada acorde que tocava, cada palavra que cantava, era parte integrante das histórias que tecia, sempre com um convite implícito: sentir, questionar, divagar e pertencer.”
Nascido Robert Hall Parber a 16 de Outubro de 1947, em São Francisco, BOB WEIR teve um percurso que se confunde com a própria história da contracultura norte-americana. O encontro decisivo com Jerry Garcia aconteceu quando tinha apenas 16 anos, numa visita aparentemente fortuita à Dana Morgan’s Music Store, em Palo Alto. Dessa ligação nasceu primeiro o projecto Mother McCree’s Uptown Jug Champions e, em 1965, os GRATEFUL DEAD, banda que viria a tornar-se um fenómeno cultural sem precedentes.
Sendo o membro mais jovem do grupo, Weir desenvolveu uma abordagem singular à guitarra rítmica, integrando influências do jazz, da música country e até da música clássica num contexto profundamente improvisacional. Esse papel, muitas vezes menos celebrado do que o virtuosismo solista de Garcia, revelou-se essencial para a identidade sonora dos GRATEFUL DEAD, funcionando como uma teia harmónica e rítmica que permitia longas explorações musicais. Paralelamente, Weir assumiu também funções vocais de destaque, assinando e interpretando alguns dos temas mais reconhecíveis do repertório da banda.
O reconhecimento institucional chegou em 1994, com a entrada dos GRATEFUL DEAD no Rock and Roll Hall of Fame, e voltou a manifestar-se em 2024, quando BOB WEIR recebeu uma distinção do Kennedy Center, sublinhando o impacto duradouro do seu contributo artístico. Após a dissolução dos GRATEFUL DEAD, em 1995, Weir recusou qualquer ideia de reforma ou de nostalgia estagnada. Pelo contrário, manteve uma actividade constante, liderando ou integrando projectos como RatDog, Furthur, Bobby Weir & Wolf Bros e, mais recentemente, Dead & Company, formação que apresentou o legado da banda a novas gerações de ouvintes.
Os seus últimos meses foram marcados por uma determinação que espelhava toda uma vida de resistência criativa. Diagnosticado em julho, Weir iniciou tratamentos e, poucas semanas depois, regressou ao palco da sua cidade natal para três concertos de celebração dos 60 anos dos GRATEFUL DEAD, realizados no Golden Gate Park, em Agosto de 2025. Sobre esses momentos, a filha escreveu: “Essas actuações, emocionais, cheias de alma e de luz, não foram despedidas, mas ofertas. Mais um gesto de resiliência. Um artista que escolheu, mesmo então, continuar à sua maneira.”
O comunicado termina com palavras que ecoam o espírito errante e poético que sempre acompanhou BOB WEIR. “Ao recordarmos o Bobby, é difícil não sentir o eco da forma como viveu: um homem a vaguear e a sonhar, sem nunca se preocupar se a estrada o levaria a casa. Uma criança de incontáveis árvores. Uma criança de mares sem limites.”
Num tributo final, Chloe Weir partilhou o desejo do próprio músico quanto à forma como gostaria de ser lembrado. “Não há um pano final aqui,” escreveu, evocando o sonho do pai de um legado de trezentos anos para o cancioneiro dos GRATEFUL DEAD. “Que esse sonho viva através das gerações futuras de Dead Heads. E assim o despedimos da mesma forma que ele nos enviou a tantos de nós pelo caminho: com uma despedida que não é um fim, mas uma bênção. Uma recompensa por uma vida que valeu a pena ser vivida.”
Com a morte de BOB WEIR, encerra-se um capítulo fundamental da música popular norte-americana, mas permanece uma obra que continua a desafiar o tempo, a lógica do mercado e a própria ideia de pertença artística. O seu legado vive na estrada, nas canções e numa comunidade que ele ajudou a criar e que dificilmente deixará de existir.











