O BANDCAMP decidiu traçar uma linha clara num debate que divide a indústria musical. A nova política entra em vigor para travar a proliferação de áudio artificial e reforçar a centralidade dos artistas humanos num ecossistema cada vez mais pressionado por automatismos tecnológicos.
A plataforma Bandcamp anunciou oficialmente a proibição de todo e qualquer áudio ou música gerados por inteligência artificial, numa decisão que reforça a identidade do serviço como um espaço dedicado à criação musical humana e ao apoio directo aos artistas. A medida foi tornada pública ontem, terça-feira, 13 de Janeiro, através de uma comunicação da equipa de suporte da plataforma no Reddit, coincidindo com a divulgação do balanço anual de 2025.
De acordo com o Bandcamp, a decisão surgiu após uma reflexão motivada pelo contacto diário com “a enorme quantidade de criatividade humana e paixão que os nossos artistas expressam no Bandcamp todos os dias”. A plataforma sublinha que o objectivo desta medida passa por “proteger e manter” o seu serviço como “uma comunidade vibrante de pessoas reais a criar música incrível”, num momento em que o debate em torno da utilização de inteligência artificial na indústria musical se intensifica.
Estas novas regras são claras e assentam em dois princípios fundamentais. Em primeiro lugar, qualquer música ou áudio “gerado totalmente ou substancialmente por IA” passa a ser explicitamente proibido na plataforma. Em segundo, o uso de ferramentas de IA para “imitar outros artistas ou estilos” é igualmente vetado, numa extensão de políticas já existentes contra práticas de infração de propriedade intelectual. O Bandcamp deixa assim pouco espaço para ambiguidades, optando por uma posição firme num território que outros serviços continuam a abordar de forma hesitante.
A plataforma encoraja ainda a comunidade a recorrer às ferramentas de denúncia disponíveis sempre que identifique quaisquer conteúdos suspeitos, reservando-se o direito de remover música “sob suspeita de ter sido gerada por IA”. Ao mesmo tempo, a empresa compromete-se a “comunicar quaisquer atualizações à medida que o espaço da IA generativa, em rápida evolução, se desenvolva”, reconhecendo implicitamente que este é um campo em permanente mutação.

A reacção da comunidade não tardou e, pelo menos no Reddit, foi largamente positiva. Um utilizador escreveu: “O Bandcamp continua a ser o melhor sítio para publicares a tua música.” Outro acrescentou: “Estou absolutamente entusiasmado com isto. É a minha forma favorita de apoiar os artistas que adoro e fico feliz por saber que continuará a ser um espaço diferente das outras plataformas.” Estes comentários refletem um sentimento recorrente entre músicos independentes e fãs: a percepção de que o Bandcamp continua 100% alinhado com os interesses de quem cria e consome música fora dos grandes circuitos industriais.
O mesmo comunicado serviu também para esclarecer outros pontos relevantes no debate em torno da IA. O Bandcamp reforça que a utilização de música alojada na plataforma para fins de treino de modelos de inteligência artificial é “estritamente proibida”, fechando a porta a práticas que também têm gerado forte contestação numa série de outros contextos, sobretudo quando envolvem o uso de catálogos sem consentimento explícito dos artistas.
Este posicionamento contrasta com o cenário mais ambíguo observado nas plataformas de streaming. Apesar do Spotify ter anunciado recentemente medidas de proteção para artistas face à IA, continua a enfrentar críticas pela presença de faixas falsas ou geradas artificialmente no seu catálogo. A Apple Music, por sua vez, tem adoptado a tecnologia de forma mais cirúrgica, concentrando-se sobretudo na criação automatizada de playlists. Já fora do universo estritamente das plataformas, casos como o de Xania Monet, um projecto musical gerado por IA que chegou às tabelas da Billboard, ilustram até que ponto estas experiências começam a ganhar visibilidade no mercado mainstream.
Nesse contexto, a decisão do Bandcamp assume um peso simbólico significativo. Trata-se de um gesto que, embora possa parecer modesto à escala da indústria global, reafirma um compromisso claro com os músicos reais e com a economia criativa independente. Não é um detalhe menor que, só em 2025, a plataforma tenha pago cerca de 19 milhões de dólares a artistas e editoras, consolidando o seu papel como um dos pilares mais relevantes — e eticamente assumidos — do ecossistema musical alternativo.
A próxima edição da Bandcamp Friday, iniciativa em que a totalidade das receitas reverte directamente para artistas e editoras, está marcada para 6 de Fevereiro. Até lá, a decisão agora anunciada surge como mais um argumento para quem vê na Bandcamp não apenas uma plataforma de distribuição, mas um espaço de resistência num panorama digital cada vez mais dominado por algoritmos. Caso para dizer… “BANDCAMP, YOU’RE THE BEST!”.











