Da confrontação ritualista das WITCH CLUB SATAN ao peso ancestral dos ALIEN WEAPONRY, a noite culminou num espetáculo total onde os AVATAR confirmaram por que razão são uma das forças mais singulares do metal contemporâneo.
Numa noite fria de sexta-feira, o LAV – Lisboa Ao Vivo recebeu um dos espectáculos mais aguardados d primeira metade do ano. A digressão encabeçada pelos AVATAR surgia anunciada como uma experiência pensada ao detalhe, onde cada elemento — visual, sonoro e performativo — contribui para uma narrativa maior. Ainda assim, antes dos músicos suecos assumirem o centro do palco, a noite construiu-se como uma progressão clara, partindo da tensão ritualista até à catarse total.
A abertura da boite coube às WITCH CLUB SATAN, trio norueguês que, apesar de ter de se apressar para seguir caminho à Bilbau, recusou assumir o papel tradicional de banda de suporte. Desde os primeiros momentos, ficou evidente que o que se desenrolava ali não era um concerto convencional, mas algo mais próximo de um performance. Primeiro envoltas em adereços orgânicos e simbologia crua, depois nuas com longas cabeleiras a atenuar as formas, conduziram o público por uma actuação que oscilou entre o confronto directo — as palavras dirigidas a Netanyahu e a Epstein foram bem certeiras — e a introspeção inquietante.
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Sem pausa significativa, os ALIEN WEAPONRY assumiram o palco e mudaram o eixo da noite. Onde as WITCH CLUB SATAN invocaram tensão e estranheza, o trio neozelandês trouxe movimento imediato. A sua fusão de thrash contemporâneo com elementos rítmicos e linguísticos da tradição Māori revelou-se a proposta mais distinta do cartaz.
A abertura, precedida por um haka executado com convicção absoluta, estabeleceu o tom para o que se seguiu. Temas como «Rū Ana Te Whenua» e «Te Riri o Tāwhirimātea» impuseram-se com riffs densos e uma secção rítmica implacável, e desencadearam os primeiros mosh pits significativos da noite. Depois, a «Mau Moko» e a «Taniwha» acrescentaram uma dimensão mais atmosférica, com cânticos e as cadências tribais a reforçarem o carácter identitário da música que debitam.
E, claro, como seria de esperar uando «Kai Tangata» ecoou pelo LAV, a resposta foi imediata. Os corpos na zona central da sala, entraram em colisão, os braços ergueram-se um pouco por toda a sala e, feitas todas as contas, a ligação entre banda e público tornou-se inequívoca – ali ao lado alguém dizia que tinha sabido a pouco, provavelmente com razão. Ainda assim, e pese esse facto de terem estado em palco só 30 minutos, os ALIEN WEAPONRY afirmaram-se como um exemplo de que o metal mais pesado pode ser, além de simultaneamente contemporâneo e profundamente enraizado na tradição, uma proverbial linguagem universal.
Ainda assim, tudo isto funcionou apenas como preparação para o momento central da noite.
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Os suecos AVATAR entraram em palco às 21:05, e apresentaram-se com uma encenação cuidadosamente coreografada, como se fossem invocados por uma máquina viva. A iluminação cortava a escuridão com precisão cirúrgica, e foi revelando gradualmente a figura do vocalista e MC Johannes Eckerström, envolto numa capa e a empunhar um candeeiro, numa imagem que evocou simultaneamente cerimónia e teatro desde o primeiro momento.
A abertura com «Captain Goat», do novo álbum «Don’t Go In The Forest», estabeleceu imediatamente a escala do espectáculo que se seguiria e, no final, a banda demonstrou por que razão se tornou já uma referência incontornável no metal moderno, equilibrando peso extremo com sofisticação performativa. Ao longo da noite, alternaram entre material mais recente e aqueles temas que consolidaram o seu estatuto, como «The Dirt I’m Buried In», «Smells Like A Freakshow» e «Hail The Apocalypse», que são aquelas que a maioria quer ouvir.
No centro de tudo esteve, como sempre, a presença magnética de Johannes Eckerström. O vocalista assumiu plenamente o papel de mestre de cerimónias, e conduziu o público com uma combinação de teatralidade, intensidade e controlo absoluto. A voz revelou a diversidade que se quer, e alternou entre registos mais extremos e passagens melódicas com naturalidade, enquanto a sua linguagem corporal amplificava cada momento.







Referências? São várias, dos REFUSED a ALICE COOPER, passando pelos IN FLAMES. No entanto, hoje em dia os AVATAR já são sinónimo de uma identidade que transcende os limites tradicionais de género. Sim, são coisas que já ouvimos noutros lados, mas a abordagem tanto incorpora elementos de espetáculo que evocam a tradição como uma sensibilidade contemporânea e uma identidade própria. Talvez tenha sido esse junção de factores, com um empurrão da “abertura” para os IRON MAIDEN, que, em comparação com a primeira vez que tocaram na mesma sala, tenham dobrado a audiência.
Isso e a máquina oleada que são, com quilómeteos de estrada às costas. Instrumentalmente, os músicos são exímios e revelam uma precisão impressionante. Com som equilibrado em várias zonas da plateia, os riffs surgiram com uma clareza cirúrgica, a secção rítmica manteve sempre uma consistência inabalável e a dinâmica entre todos os músicos demonstrou anos de maturação. Com o público na mão, estavam reunidas as condições para presentearem os fiéis com uma narrativa cuidadosamente estruturada, que intercalou momentos de impacto imediato com passagens mais atmosféricas que reforçaram a dimensão teatral do espetáculo.
Uma coisa é certa: o alinhamento apresentado pelos AVATAR no LAV — Lisboa Ao Vivo foi construído com um sentido claro de progressão dramática, abrindo com «Captain Goat», cuja natureza cerimonial estabeleceu imediatamente a atmosfera que dominaria a actuação. A partie daí, a intensidade manteve-se elevada com «Silence in the Age of Apes», antes de «The Eagle Has Landed» introduzir aquele primeiro momento de verdadeira comunhão com o público.



Seguiu-se a sequência formada por «In the Airwaves» e «Bloody Angel» a consolidar tanto o peso como a teatralidade, enquanto «Death and Glitz» e «Blod» aprofundaram a dimensão obscura do espectáculo, com uma presença cénica cada vez mais dominante. Portanto, no momento em que «The Dirt I’m Buried In» e «Colossus» ecoaram pela sala, o concerto entrou numa fase de afirmação absoluta, sustentada pela entrega do público.
A segunda metade do concerto apostou no lado mais narrativo e teatral, com «Torn Apart» a introduzir uma tensão mais melódica, antes de um dos momentos mais singulares da noite: Johannes Eckerström ao piano em «Howling At The Waves» a criar uma pausa inesperada. A partir daí, o concerto ganhou nova força com «Glory to Our King» e «Legend Of The King», esta última reforçada por uma encenação com o guitarrista Jonas Jarlsby a assumir simbolicamente lugar de destaque, aprofundando o imaginário cénico dos AVATAR.
A reta final com «Let It Burn» e «Tonight We Must Be Warriors» funcionou como preparação para um encore explosivo, onde «Don’t Go In The Forest» reafirmou o presente criativo da banda, «Smells Like A Freakshow» trouxe um momento de celebração caótica e, finalmente, «Hail the Apocalypse» encerrou a noite com um impacto inevitável. Resultado: uma banda plenamente consciente da sua identidade e da importância de cada momento, que equilibra peso, teatralidade e intensidade numa narrativa coesa e envolvente.






