Com os ALTER BRIDGE, DAUGHTRY e SEVENDUST a protagonizarem uma noite de convergência absoluta, o Campo Pequeno voltou a afirmar-se como um espaço onde o hard rock contemporâneo encontra público atento, transversal e exigente.
Ontem terça-feira, 10 de Fevereiro, à noite, Lisboa recebeu um alinhamento que raramente surge com esta coerência interna e este nível de maturidade artística. ALTER BRIDGE, DAUGHTRY e SEVENDUST partilharam o palco do Campo Pequeno em mais uma data integrada na What Lies Within Tour, mas o que se viveu esteve longe da lógica habitual de “banda principal com suportes”.
Pelo contrário, a noite construiu-se como uma progressão cuidada, em que cada actuação acrescentou peso, expectativa e contexto à seguinte, culminando num concerto que confirmou a vitalidade de um circuito hard rock que não vive apenas de nostalgia.
Ainda longe da lotação máxima, mas perante um público visivelmente empenhado em chegar cedo, os SEVENDUST abriram a noite com uma escolha de entrada tão inesperada quanto eficaz. «We’ve Only Just Begun», dos CARPENTERS, ecoou pela sala antes da banda subir ao palco, funcionando como comentário irónico à longevidade de um grupo formado em 1997 e que prepara já o lançamento do seu décimo quinto álbum de estúdio.
O contraste entre a doçura da faixa e o impacto imediato de «Black» serviu de cartão de visita para um concerto directo, sem rodeios e consciente do tempo disponível. Com o novo single «Is This The Real You?» a ocupar o segundo lugar do alinhamento, o resto da actuação privilegiou material dos primeiros álbuns, ouviram-se «Enemy», «Praise», «Crucified» e «Face To Face», e essa foi uma decisão estratégica muito inteligente para uma banda que, apesar de uma discografia sólida e consistente, continua a ser subestimada fora dos Estados Unidos — e que se estava a estrear por cá tanto tempo depois.
Com um som bem potente e equilibrado, a actuação nunca perdeu tração, muito por mérito de Lajon Witherspoon, cuja presença vocal e domínio técnico continuam a ser o elemento agregador da banda. Houve pouco espaço para surpresas, mas muita eficácia na execução, deixando a sensação de que, numa altura em que o nu-metal está definitivamente a viver um revivalismo, os SEVENDUST continuam a ser um nome que merece um regresso em circunstâncias mais generosas.




Com o passar do tempo, a arena compôs-se de forma significativa, e a entrada dos DAUGHTRY coincidiu com uma mudança subtil no perfil do público: mais diversidade etária, mais curiosidade do que expectativa rígida. A banda da Carolina do Norte chegou a Lisboa com a responsabilidade implícita de quebrar uma imagem ainda muito associada às baladas radiofónicas do início da carreira, e fê-lo com notável clareza.
A celebrar 20 anos do LP de estreia «Daughtry», o grupo optou por um alinhamento que, sem ignorar o passado, apontou claramente para a fase mais recente da discografia. O som revelou-se talvez o mais equilibrado da noite, com especial destaque para a clareza dos arranjos e para a forma como o teclado —dominado com chão cheia por Elvio Fernandes (que tem “toda a família na Madeira“, como explicou ao público — ocupou espaço sem diluir o impacto das guitarras.
Chris Daughtry assumiu desde cedo o controlo do palco, alternando momentos de força declarada com passagens mais contidas e, a dada altura, a versão de «Separate Ways (Worlds Apart)», dos JOURNEY, confirmou uma banda muito confortável a dialogar com o legado clássico do rock, enquanto «Heavy Is The Crown» e «Artificial» reforçaram a relevância do seu material mais recente. No final, ficou claro que os DAUGHTRY são hoje uma proposta mais ampla e consistente do que a memória colectiva tende a sugerir.
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Quando os ALTER BRIDGE subiram ao palco, já com o Campo Pequeno quase totalmente preenchido, o ambiente era de expectativa controlada, mais próxima da confiança do que propriamene daquela euforia imediata. A abertura com «Silent Divide», do novo «Alter Bridge», lançado no início do mês, revelou-se uma escolha cirúrgica: recente, mas construída com a clareza estrutural suficiente para se integrar de imediato no repertório clássico da banda.
Desde os primeiros minutos ficou evidente que o concerto seria menos uma apresentação promocional do novo disco e mais uma leitura alargada de um catálogo que ganhou peso próprio ao longo de duas décadas. Ao longo da primeira metade do concerto, a banda mostrou-se particularmente focada na fluidez do alinhamento. Temas como «Addicted To Pain» e «Cry Of Achilles» surgiram encadeados de forma quase orgânica, sem pausas prolongadas ou discursos excessivos, reforçando a ideia de um grupo confortável com o seu estatuto e consciente da importância do ritmo interno do espectáculo.
Os temas iam sucedendo-se, «Playing Aces», seguida de «Fortress», «Burn It Down» (cantada por Mark Tremonti), «What Lies Within», e tanto Kennedy como Tremonti iam brilhando, de forma equilibrada, nos seus lugares, mas não há como negar que a dinâmica vocal entre ambos voltou a ser um dos pilares do espectáculo. Não apenas pela alternância entre vozes principais e de apoio, mas pela forma como essa partilha contribui para uma leitura mais rica das canções ao vivo quando comparadas com as suas versões de estúdio.
Myles Kennedy assumiu desde cedo um papel central na comunicação com a plateia, mas sempre com contenção, privilegiando breves observações em detrimento de monólogos ensaiados ou de alarmismos quando, a meio da actuação, teve de interromper o êxito «Open Your Eyes» ao aperceber-se de que uma fã nas primeiras filas necessitava de assistência. A pausa foi imediata e gerida com serenidade, com o cantor a acompanhar visualmente a situação até que esta ficasse rapidamente resolvida. O episódio, longe de quebrar o fluxo da noite, acabou por reforçar a proximidade entre banda e público, e sublinhou uma atenção ao detalhe que raramente é visível em salas desta dimensão.
Retomado o concerto com «Tested And Able», os ALTER BRIDGE aprofundaram a viagem pela sua discografia e, já na segunda metade da actuação, houve ainda espaço para um momento para “mais tarde recordar”, quando um pedido de casamento na plateia a interromper por instantes o curso do concerto. Mais uma vez, longe de tratar o episódio como uma curiosidade lateral, Myles Kennedy assumiu o papel de anfitrião involuntário, e conduziu a situação com humor, sem nunca perder o controlo do tempo ou do tom da noite. O gesto. claro, foi recebido com aplausos generalizados.
O ambiente, com o Campo Pequeno quase totalmente esgotado, era de festa e outros momentos, como «Broken Wings», «Watch Over You», «Silver Tongue» e «Rise Today» provaram que, neste momento, o material mais recente da carreira dos ALTER BRIDGE já está plenamente assimilado pelo seu público fiel, enquanto «Metalingus», que fechou o set principal, trouxe de regresso uma fisicalidade mais directa e musculada, já a preparar o terreno para o encore.
A recta final trouxe «Blackbird», precedido por uma breve referência ao clássico homónimo dos THE BEATLES, e a noite encerrou com «Isolation», uma escolha acertada para fechar um concerto que privilegiou consistência e equilíbrio em detrimento de efeitos fáceis. No final, ficou a sensação clara de que os ALTER BRIDGE atravessam uma fase de plena maturidade artística: seguros do seu repertório, atentos ao público e capazes de integrar imprevistos sem comprometer a coesão do espetáculo. Em Lisboa, essa solidez traduziu-se num concerto longo, bem gerido e profundamente comunicativo.
ALINHAMENTO ALTER BRIDGE:
01. Silent Divide | 02. Addicted To Pain | 03. Cry Of Achilles | 04. Playing Aces | 05. Fortress | 06. Burn It Down | 07. What Lies Within | 08. Open Your Eyes | 09. Tested And Able | 10. Broken Wings | 11. Watch Over You | 12. Silver Tongue | 13. Rise Today | 14. Metalingus | Encore: 15. Blackbird | 16. Isolation













