ALTER BRIDGE

ALTER BRIDGE: Novo álbum «Alter Bridge», para ouvir na íntegra [review + streaming]

Hard rock vivido com convicção e experiência, num registo que reforça o lugar dos ALTER BRIDGE no panorama moderno do género.

Mais de duas décadas depois de se terem afirmado como uma das forças mais consistentes do hard rock moderno, no seu novo álbum homónimo, os ALTER BRIDGE voltam a demonstrar que a sua música nunca se limitou a riffs musculados ou a refrões de impacto imediato. Há aqui algo mais profundo em jogo: uma capacidade rara de transformar canções em estados de espírito, até mesmo de construir momentos que ficam suspensos no tempo e se colam à memória emocional de quem ouve.

Formados por Mark Tremonti na guitarra, Brian Marshall no baixo e Scott Phillips na bateria — trio com passado nos CREED — e liderados pelo inconfundível Myles Kennedy, neste oitavo álbum de estúdio, os ALTER BRIDGE mostram-se com uma identidade plenamente consolidada. Portanto, que se ouve neste «Alter Bridge» não é só hard rock bem executado; é uma síntese madura de peso, melodia e intensidade emocional, trabalhada com um sentido de equilíbrio que poucas bandas do género conseguem alcançar.

Desde os primeiros segundos de «Silent Divide», fica claro que este álbum pretende envolver o ouvinte de forma total. A intro luminosa dá rapidamente lugar a riffs cerrados e a uma secção rítmica vigorosa, enquanto a voz de Myles Kennedy se eleva acima das guitarras como uma lâmina afiada, cortando o peso instrumental sem nunca perder melodia. É um tema enérgica, feita para abrir caminho, mas também um manifesto do ADN dos ALTER BRIDGE: intensidade sem abdicar da emoção.

O álbum desenvolve-se maioritariamente em terrenos de médio andamento, uma escolha que reforça a identidade da banda e permite aos músicos explorarem dinâmicas mais subtis. Temas como «Rue The Day», «Power Down», «Disregarded» e «What Lies Within» apostam em grooves sólidos, refrões bem definidos e camadas de guitarra que se acumulam com precisão quase arquitetónica. São canções que não procuram o impacto imediato da velocidade ou do peso, mas antes uma força sustentada, construída com paciência e atenção ao detalhe.

Há também espaço para momentos ligeiramente mais contidos, sempre sem que o disco perca tensão. «Trust In Me» e «Scales Are Falling» revelam-nos uma faceta mais introspectiva, onde o peso dá lugar a atmosferas densas e emotivas. Mesmo nestes registos mais controlados, os ALTER BRIDGE, que voltam a Lisboa no próximo dia 10 de Fevereiro, mantêm uma aresta que impede qualquer aproximação ao conforto fácil: há sempre uma sombra, um conflito latente, que mantém o ouvinte atento.

Se Myles Kennedy já é, há muito, reconhecido como uma das vozes mais marcantes da sua geração, este álbum volta a sublinhar a sua versatilidade. Nos temas mais pesados, impõe-se com autoridade e alcance impressionante; no entanto, é nos momentos mais despidos que a sua interpretação ganha um especial destaque. Curiosamente, o disco inclui apenas uma verdadeira balada, «Hang By A Thread», com nuances country e ligeiro travo sulista, onde surge um subtil “drawl” vocal que acrescenta carácter e profundidade.

A fechar, «Slave To Master» funciona como uma espécie de catarse final. É um tema épico, de construção gradual, que sintetiza muitos dos elementos apresentados ao longo deste disco: peso, melodia, emoção e um sentido claro de conclusão. Mais do que fechar o LP, encerra uma viagem emocional que começa nos primeiros acordes e se vai intensificando, tema após tema.

Verdade seja dita, bastou-nos uma audição atenta para perceber que os ALTER BRIDGE sempre foram uma banda que expôs o coração através da música, e «Alter Bridge» confirma essa abordagem sem reservas. Não há aqui pressa, nem necessidade de provar seja o que for. Há, sim, uma confiança serena numa linguagem própria, construída ao longo de mais de vinte anos de carreira.

Portanto, num panorama musical muitas vezes marcado pela efemeridade, este álbum surge como sendo a prova de que os ALTER BRIDGE continuam relevantes, criativos e, acima de tudo, fiéis a si próprios. Não reinventam a roda, mas tratam de refiná-la com mestria — e isso, por si só, diz muito sobre a solidez do seu legado.